Seminário Intercena em Porto Alegre - final

Painel de encerramento reuniu todos os festivais presentes
Na quinta-feira (26/4), um segundo painel foi dedicado à apresentação do Sistema de Indicadores dos Festivais de Teatro do Brasil e outras pesquisas em desenvolvimento.

1. O Professor Élder Patrick Maia Alves, da Universidade Federal de Alagoas, fez uma exposição sobre os efeitos da digitalização nos mercados culturais globalizados, exibindo alguns dados sobre espaços culturais, públicos, renda e emprego nas artes cênicas. Élder é autor (entre outras obras), de O capitalismo cultural-digital: investimento cultural público versus incentivos fiscais, publicado pelo Observatório Itaú Cultural. Ele anunciou para breve uma pesquisa de mapeamento do setor, a ser realizada mediante convênio entre o MinC e a UFAL.

2. O Professor Marcelo Milan, Coordenador de Extensão do Núcleo de Estudos em Economia Criativa e da Cultura (Neccult) da UFRGS, apresentou algumas pesquisas em curso nessa instituição, com destaque para um diagnóstico da cadeia produtiva das artes cênicas, e que utilizará os dados recolhidos até agora pela Rede de Festivais, com o objetivo de propor diretrizes para políticas futuras, com foco no desenvolvimento dos territórios, fomento e promoção da cena local, parcerias e impactos econômicos.

3. O produtor e gestor cultural Paulo Feitosa fez um relato sobre a Cartografia dos Festivais do Ceará, que catalogou 26 festivais de artes cênicas e música, os quais envolvem mais de 200 grupos participantes, atingindo 400 mil espectadores a um custo estimado de R$ 7 milhões. Em muitas cidades, o festival é o único evento cultural significativo. No momento, foi finalizada a coleta dos dados, que após análise irá gerar um documento síntese.

4. A Professora Ana Flávia Machado, do  Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas, apresentou a metodologia da pesquisa "Análise de rede (relações e fluxos) e pesquisa de público nos festivais", com foco na rede de relações que se estabelece entre artistas, grupos e espaços culturais na capital mineira, exibida num diagrama chamado "rede sociométrica".

Na sexta-feira, quarto e último dia, o evento teve seu encerramento com uma painel que reuniu todos os representantes de 14 festivais brasileiros presentes (além do RS, estavam representados os estados do PI, PR, BA, MG, MT, PE, SP, RJ, CE e o DF) lotando o palco do Auditório da Fundação Iberê Camargo para debater questões de conjuntura, trocas de saberes e perspectivas para o futuro.

Leia as postagens anteriores com o restante do nosso relato sobre o Intercena: parte 1, parte 2 e parte 3.

Seminário Intercena em Porto Alegre - Parte 3

Programação do terceiro dia do Seminário aconteceu no
auditório da Fundação Iberê Camargo
No terceiro dia, o Seminário Intercena teve continuidade com o painel Distribuição Internacional das Artes Cênicas, que reuniu representantes de cinco grandes eventos do setor.

1. Carla Valles, diretora de gestão e conteúdos do Festival Santiago Off, evento em sua sétima edição, que surgiu na capital chilena a partir de uma construção coletiva dos próprios grupos de artes cênicas, como alternativa ao festival oficial Santiago a Mil (que completou 25 anos de existência em 2018). Incorpora atividades de formação, residências e debates, de forma descentralizada, envolvendo também o público escolar. Com outros 17 festivais e grupos de dança, teatro e circo, o Santiago Off integra uma rede, responsável por elaborar um Projeto de Lei de Fomento às Artes Cênicas, que acaba de ser aprovado pela Câmara de Deputados, o qual contempla a criação de um fundo, um conselho e um prêmio nacional para o setor.

2. Mario Vega apresentou Mapas, o Mercado Cultural de Artes Performáticas do Atlântico Sul, que terá este ano sua segunda edição, na Ilha de Tenerife (Espanha). Em sua primeira edição, recebeu mais de 1200 inscrições de artistas de música e artes cênicas de 48 países.

3. Outro evento internacional realizado em solo espanhol (em Donostia-San Sebastian) é a Feira de Artes Cênicas dFeria, apresentada no Seminário por Mario Vega. Sua 24a. edição, realizada em março passado, integra as dimensões de festival e feira de negócios, tendo reunido, segundo o site do evento, pelo menos 150 artistas e 200 programadores.

4. Bem mais próximo de Porto Alegre (na geografia) encontra-se o Festival Internacional de Buenos Aires, apresentado por Federico Irazábal. Um dos tantos festivais promovidos pela Prefeitura da Capital portenha, com apoio de outros organismos públicos e privados, o FIBA é um evento bienal dedicado às Artes Cênicas, tendo realizado em 2017 sua 11a. edição, com 80 produções apresentadas em três semanas para mais de 50 mil espectadores. Seu desafio é manter o interesse do público em uma cidade que tem uma produção contínua na área, a qual porém é extremamente concentrada em termos territoriais.

5. Finalmente, o Festival Internacional de Teatro de Manizales (Colômbia) foi apresentado por seu diretor Octavio Arbeláez. Um dos mais antigos do Continente, irá comemorar meio século de existência em sua próxima edição, em outubro próximo.

Leia as postagens anteriores com o restante do nosso relato sobre o Intercena: parte 1 e parte 2.

Seminário Intercena em Porto Alegre - parte 2

[continuação da postagem anterior]

Após as rodadas de negócios, pela parte da manhã, o segundo dia do Seminário Intercena teve seguimento à tarde com mais dois painéis, tratando dos temas Plano estratégico de internacionalização e O investimento social privado na formulação do mercado das artes e a exportação.

No primeiro, assistimos a um panorama da circulação de espetáculos brasileiros em festivais no exterior, ainda muito incipiente. Marcelo Bones, diretor teatral que coordena o Observatório dos Festivais, propõe cinco fatores ou "gargalos" que contribuem para esta situação: 1) Falta de políticas públicas (os editais do MinC para passagens acabaram); 2) o idioma, que demanda esforços de tradução, legendagem ou aprendizado (mas não atrapalha a dança); 3) a dimensão territorial do Brasil, que já dificulta a circulação mesmo sem sair do país; 4) a ausência de "eventos de negócios" que aproximem programadores, produtores e artistas (já que os festivais priorizam os espetáculos para seus públicos); e 5) a baixa prioridade dada pelos próprios artistas e grupos ao assunto.

Marcelo Allasino, diretor-executivo do Instituto Nacional do Teatro da Argentina, trouxe a experiência daquele país, cuja classe teatral mobilizada obteve do governo a aprovação de uma Lei Nacional, em 1997, estabelecendo um órgão próprio, com orçamento independente para promoção das artes cênicas. O valor executado pelo INT em 2017 foi de US$ 17 milhões, recursos provenientes de taxação sobre a bilheteria dos cinemas e também das loterias. No campo da internacionalização, o INT auxilia na circulação tanto de grupos nacionais para o exterior quanto vice-versa, além de oferecer bolsas de estudo e publicação de textos de dramaturgia. Allasino também foi eleito recentemente para presidir o programa de cooperação internacional Iberescena. (cuja convocatória encontra-se aberta, para projetos a serem realizados em 2019)

O segundo painel reuniu dois importantes patrocinadores de cultura, a Braskem (patrocinadora do próprio Intercena) e o Itaú Cultural. Representando este último, Eduardo Saron fez um balanço do programa Rumos, cujos editais ao longo do tempo já acumularam mais de 45 mil inscrições, que constituem um verdadeiro mapa da demanda artística do país. João Freire, da Braskem, discorreu sobre as razões da empresa em apoiar projetos culturais como o Intercena e outros.

Representando o Governo Federal, estiveram presentes Ana Letícia Fialho, diretora do Depto. de Estratégia Produtiva da Secretaria de Economia da Cultura do MinC; e Flávia Furtado, da Secretaria de Comércio e Serviços do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Ana Letícia destacou alguns projetos recentes do MinC nesse campo, como os dois volumes do Atlas Econômico da Cultura Brasileira (produzido pela UFRGS em convênio como MinC) e o Manual de Exportação de Bens e Serviços Culturais (que contou com apoio da Unesco), assim como os preparativos para o Mercado de Indústrias Culturais do Sul - MicSul, que este ano será realizado pela primeira vez no Brasil. A representante do MDIC apresentou alguns dados sobre o comércio exterior de serviços, onde estão incluídas as atividades culturais, setor que se apresenta bastante deficitário, já que o volume de importações é oito a nove vezes maior do que as exportações.

Leia aqui a primeira parte do nosso relato sobre o Intercena.

Setor de festivais debate internacionalização em Porto Alegre

Abertura do evento aconteceu no Teatro da Santa Casa

Seminário Intercena reuniu companhias de artes cênicas e curadores do país e exterior para ampliar oportunidades de circulação


Na semana que passou, Porto Alegre recebeu mais uma etapa do projeto Intercena, idealizado e dirigido pelo ator e diretor de teatro Alexandre Vargas, com patrocínio da Braskem, via Lei de Incentivo à Cultura do RS.

Lançado em dezembro de 2017, o Intercena abriu inscrições para companhias de artes cênicas interessadas em ampliarem sua circulação em âmbito nacional e internacional. As 22 companhias gaúchas selecionadas participaram de atividades de capacitação, culminando na participação no Seminário Internacional sobre Festivais de Artes Cênicas, realizado de 24 a 27 de abril. A programação incluiu rodadas de negócios com a participação de 30 convidados do país e do exterior, entre curadores e programadores de festivais e espaços cênicos, gestores de órgãos culturais e empreendedores do setor.

O primeiro dia do Seminário teve dois painéis, o primeiro dedicado aos mercados e redes de cooperação e o segundo aos processos de curadoria; além da apresentação do programa Coincidência, da Fundação Pro Helvetia, que promove o intercâmbio cultural entre a Suíça e a América do Sul; finalizando com o lançamento do livro O que pensam os curadores de artes cênicas, de Michele Rolim (baseado em sua Dissertação de Mestrado Pensamento Curatorial em Artes Cênicas).

O primeiro painel contou com apresentações sobre a Rede de Festivais brasileiros e seu Observatório dos Festivais, plataforma que reúne informações sobre essa rede, ainda em construção, que pretende propor políticas públicas para o setor. Um levantamento preliminar feito em 2015 indicou que os 68 festivais mapeados pela rede geraram 15 mil postos de trabalho, movimentando cerca de R$ 50 milhões, naquele ano. No plano internacional, foi apresentada a Redelae - Red Eurolatinoamericana de Festivales de Artes Escénicas, que agrega atualmente 22 festivais, entre os quais o Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre é o único representante brasileiro.

No painel da tarde, a curadoria no campo das Artes Visuais foi o tema de Gabriela Kremer Motta, cuja dissertação de mestrado, Entre olhares e leituras: uma abordagem da Bienal do Mercosul, 1997-2003, foi publicada em livro em 2007, com apoio do Fumproarte.

Observatório apresenta resultados de pesquisa de públicos em Congresso

Na semana passada, o coordenador do Observatório da Cultura de Porto Alegre, Álvaro Santi, participou, na Universidade Federal de Pelotas, do I Congresso Internacional de Pesquisa em Cultura e Sociedade, onde apresentou o artigo "Perfil do Público das Artes em Porto Alegre", baseado em dados da pesquisa Usos do Tempo Livre e Práticas Culturais dos Porto-Alegrenses, realizada pelo Observatório da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, que entrevistou 1.220 pessoas com 15 anos ou mais, entre o final de 2014 e o início de 2015. (Um primeiro relatório dessa pesquisa foi publicado aqui.)

O  artigo analisa as respostas sobre frequência da população a atividades artístico culturais externas, tais como a assistência a espetáculos de música popular e erudita,dança, teatro, exposições de fotos e artes plásticas e filmes em salas de cinema, segundo variáveis como idade, sexo, cor ou raça, escolaridade, renda, trabalho, profissão e estado civil. 

Desigualdade revelada: percentual de pessoas que nunca
frequentaram atividades culturais é maior entre os negros,
para todos os tipos de atividades. (clique para ampliar)
De acordo com a pesquisa, os resultados indicam desigualdades significativas na participação (veja exemplo no gráfico ao lado), exigindo  maior atenção das políticas públicas locais no sentido de ampliar os públicos desses eventos, notadamente jovens e idosos, negros, pessoas com baixa escolaridade e baixa renda familiar. Considerando o limitado alcance e recursos das políticas culturais tradicionais, sugere que a articulação destas com outras políticas sociais - voltadas para a juventude, os idosos, a acessibilidade e o combate à discriminação racial - possa contribuir nessa tarefa; bem como a formação de público por meio do ensino das artes, com resultados a médio e longo prazo.

Realizado pelo Instituto Conex e pelo Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura (CLAEC), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do RS (Fapergs), o Congresso de Pesquisa em Cultura e Sociedade teve como proposta promover o intercâmbio de pesquisas com focos em estudos culturais, e seus variados fenômenos sociais. 

O artigo será publicado em breve nos anais do Congresso (que compartilharemos aqui).